segunda-feira, 24 de março de 2008

O quinquagésimo resgate de Saramago

Tá, confesso. O texto não é novo, nem a minha mania de deliberar a respeito do Ensaio Sobre a Cegueira. Mas, já que o momento é de renovação, ele também é de seleção. E esse eu recomendo....Por isso, aí vai...

“Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que vendo, não vêem” Parece lógico? Eu não canso de ler, uma, duas, dez vezes. Assim mesmo, sem ponto nem parágrafo, exatamente como Saramago resolveu resumir, traduzir, sintetizar—ou será codificar?—o emaranhado indissociável de ações, decisões e pensamentos humanos mais primitivos. Afinal, a forma fica desprovida de significado diante do conteúdo, em que não importa o quem ou quando, e sim o quê.
Consistirá a cegueira justamente em enxergar e selecionar o que os olhos querem ver?
A luz da razão talvez esteja exatamente em trilhar o caminho do bom senso quando os outros já perderam a sensibilidade visual. Visual no mais amplo sentido, o da capacidade de observar o todo e fazer a escolha mais sensata, muitas vezes a única capaz de solucionar um problema. A dificuldade está justamente em ir além, em prever o caminho e andar com cautela, sem pisar em falso. Talvez a cegueira tenha um lado positivo de apurar os demais sentidos e de tornar as coisas como elas verdadeiramente são. As vezes é preciso parar, pensar e sentir. Não basta enxergar para ver o que está diante do nariz. Como inteligentemente se concluiu, a obra é um convite ao leitor a recuperar a lucidez. A epígrafe resume: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. E ao olhar para o céu e deparar com um infinito desesperador de uma imensidão branca, talvez baste girar o pescoço 180 graus para baixo para topar com o mesmo mundo imóvel, imutável e escuro, como ele nunca deixou de ser.

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